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18/08/2009 - SERVIDOR - por Dr. Elias Dahan
O Inácio Obadia tem mesmo o instinto e o talento que o seu sobrenome significa e impõe. Inclina-se devotamente e alcança as modulações adequadas da voz. E aconteceu ainda à sombra da paz de Rosh Hashaná, ainda ao abrigo das lembranças do ano que passou que o Inácio conseguiu a pureza expressiva das orações do Yom Kipur. É o mesmo vovô Levy Obadia, redivivo, que mercê de sua luta pela sobrevivência, obteve dos primores de sua inteligência e da sua fé, a justa e reta passagem do rito para o coração do seu neto.
Houve uma época, a dos velhos imigrantes marroquinos, época de longas viagens de descobertas e encantamento, tempo que ainda nos aquece, tempo que nos enche de terno orgulho, em que as emoções do Yom Kipur eram tiradas à perfeição, com todas as suas sugestões de canto e marcações de ritmo. Tiradas à perfeição, das letras paradas, da tinta comum, pela voz rouquenha, emocionada, daqueles pobres viajantes lançados na incerteza de uma nova vida. A presença, a personalidade, a voz, o andar, os gestos, transfiguraram-se em sentimentos vivos, cheios de doçura e gravidade, sempre a encontrar um ou outro ouvido, um ou outro observador, memorialista escasso, fazendo registros não-escritos, em transposição para a pauta apropriada da memória e da imaginação. Cheios de misteriosas saudades, sem perder o sentimento das coisas internas, sem endurecer jamais, entenderam que os filhos e netos seriam pessoas muito diferentes deles próprios. Depois dessa geração social, o que nos apareceu durante anos, avulsamente, nos entalhes caprichosos de uma evolução lenta, foram os cantores e hazans, cheios de honestidade técnica, preciosístas, viçosos na voz e no canto, retos na fé, entretanto, um pouco carentes em transmitir as harmônicas mais sensíveis das orações.
Menos pela amizade que nos une e por muito que traga de impressão meramente pessoal, acho que o Inácio Obadia tirou-me da crua mecânica de rezar por rezar. Sem as exasperações barrocas da ortodoxia pela ortodoxia, imperial que só ela, deu-me a sensação muito presente de estar sendo ouvido. Inácio Obadia, Samuel Israel e Fortunato Lancry, brasileiros que só eles, mas judeus sefarádicos de raízes profundas, profundíssimas, estão entre nós. Raízes vetustas fincadas terra abaixo no século 18; fincaram-se por Melul, Benzaken, Benguigui, Elgrably, Obadia e outros, apoiando-se com força, fixando-nos terra abaixo, para erguerem-se como frondosa árvore, de Israel, Miscani, Larrat, Serruia e Bentes acima, com larga copa verde-amarela e doces frutos pendentes. Doces frutos, bem entendido, que já correm entre nós, catando balinhas no chão, para a nossa alegria. Os marroquinos estão entre nós, para alegria de todos. Foi ÊLE que assim determinou, creio. Foram sacerdotes latu sensu, e os ganhos foram sempre, senso estrito, simbólicos que só eles. Quando muito. Legitimando, bem entendido, a missão histórica que lhes cabia, como eles bem compreenderam. Eles contornaram a pobreza, a perseguição criminosa, o preconceito constrangedor, a doença, a discórdia, para estabelecer desde logo, o respeito, que tem nos acudido no presente, diante de sedições exacerbadamente fora dos limites do respeito mútuo.
A devoção suficiente, viva, sem o pavor metafísico da existência comum, sem tantos ornamentos extravagantes, está em Inácio Obadia e sua geração.
Sem descontos. ¿Nosotros? Para mirarlos... por muitos anos...no Jardim de Abraham...por cuidado e justiça de seu Criador.
Escrito por Dr. Elias David Dahan
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