16-12-2009 - Conheça a história dos 200 Anos da Presença Judaica na Amazônia!
Shalom! Acesse o Site do Portal Amazônia Judaica em http://www.aj200.com/ Objetivo Geral: Comemorar em todo o país, principalmente nas comunidades da Amazônia, durante todo o ano de 2010,...

25/02/2009 - Às Margens do Rio Amazonas - Parte 1

Por: Rabino Eliahu Birnbaum - Tradução: David Salgado

Neste artigo explicaremos o passado e o presente de talvez a única comunidade judaica no mundo que ainda continuam falando a “Haquitia”. Eu não tenho certeza se este dialeto é conhecido da maioria dos leitores. Eu mesmo, nunca tinha escutado falar dele até a minha última visita à cidade de Belém, ou Belém do Pará no norte do Brasil, às margens do rio Amazonas, o rio mais largo e mais longo do mundo. A cidade de Belém é a maior cidade do Estado do Pará no Brasil.

A comunidade judaica de Belém tem uma rica história de mais de 200 anos. É a comunidade mais antiga do Brasil na era moderna, e a primeira comunidade organizada do país, excetuando a comunidade de curta duração que existiu no século XVII em Recife durante o domínio holandês, e que se desmanchou e se espalhou após a reconquista dos portugueses.

As únicas comunidades judaicas que restaram hoje em dia na região amazônica foram Belém e Manaus. A primeira comunidade é a maior dentre as duas e é formada por cerca de 400 famílias enquanto que a comunidade de Manaus é composta por aproximadamente 180 famílias judaicas, embora no passado tenham existido inúmeras comunidades que se espalharam ao longo do rio Amazonas, em pequenos municípios como Maués, Itacoatiara, Alenquer, Óbidos, Santarém e outros.

Os nomes encontrados nas pedras das sepulturas nos cemitérios israelitas ao longo de todo o rio Amazonas e no cemitério antigo de Belém, nos ensinam sobre a presença de judeus que chegaram à região a partir do início do século XIX. Sobrenomes como Azulay, Assayag, Benjó, Benzaken, Benchimol, Bendahan, Benarrós, Medina, Sabbá, Serruya, Zagury e outros inúmeros, são heranças de um judaísmo vivo que hoje está muito reduzido e tenta preservar as chamas das primeiras gerações da comunidade.


Situação dos Judeus no Marrocos

A história dos judeus marroquinos da Amazônia inicia em 1492 na Península Ibérica. Os judeus sefaradim, que foram perseguidos por sua religião pela Inquisição, foram obrigados a se converter e deixar para trás centenas de anos da cultura judaico-espanhola. O rei espanhol decretou a expulsão dos judeus no dia 31 de março de 1492, e passados outros quatro anos assim fez também o Rei de Portugal.

Os judeus iniciaram uma nova Diáspora e se espalharam pelos quatro cantos da terra. Muitos judeus espanhóis e portugueses foram para Holanda, Inglaterra, Egito, Turquia, Grécia e Países Baixos, e outros muitos encontraram abrigo no norte da África, principalmente no Marrocos, ali viveram 12 gerações.

No início, a vida no Marrocos era boa e tranqüila, sem perseguições como as que haviam sofrido na Península Ibérica, mas passado algum tempo saíram para uma nova Diáspora.

No ano 1810 os primeiros judeus começaram a abandonar o Marrocos em busca da nova terra prometida: Eretz Amazônia no Brasil, e principalmente a cidade de Belém. O depressivo clima econômico, a imigração espanhola para o Marrocos que ameaçava os poucos empregos existentes, a migração dos  judeus do sul do Marrocos que fugiam das condições desérticas e as epidemias nas grandes cidades, todos estes foram fortes motivos da imigração em massa na metade do século XIX de jovens judeus, principalmente das cidades apertadas do norte do país, que saiam em busca de uma melhor sorte na Bacia Amazônica, na América do Sul.

Eles viajavam com a intenção de ficar por algum tempo e enviar dinheiro de volta aos seus familiares que estavam sofrendo, é provável que tenham sonhado com aventuras pelo mundo, e principalmente num lugar tão bonito, místico e tropical como a Bacia Amazônica. O dinheiro foi realmente enviado, porém o retorno demorou muito tempo. A comunidade de Belém foi fundada por esses judeus que escolheram ficar na nova terra.

É preciso frisar que os judeus do Marrocos estavam acostumados com as viagens, devido a falta de estabilidade de vida no país. O objetivo dessas migrações eram evitar as epidemias e doenças (principalmente a Cólera), fugir do Sultão ou de áreas de conflito (como a imigração de 1844, onde um terço da população judaica de Tanger fugiu para Cádiz e Gibraltar, com receio de um ataque francês), ou – por motivos bem mais alegres – casamentos entre famílias de cidades distantes dentro ou fora do Marrocos.

No ano 1862 a “Aliança Israelita Universal” fundou uma escola no Marrocos que incentivava o estudo de profissões criativas e línguas para os jovens judeus, na tentativa de conter a pobreza que se espalhava. Os professores da Aliança Israelita incentivaram os jovens e famílias a procurar o seu futuro no Novo Mundo, e muitos assim fizeram, principalmente indo a lugares onde as possibilidades de enriquecimento eram mais prováveis: Rio de Janeiro, Caracas, Inglaterra; porém, os pioneiros a procurarem o seu futuro no Novo Mundo chegaram a Belém às margens do Amazonas.

No início, eles chegavam em viagens longas de três meses de duração e em navios lentos. Quando passaram a atracar no Brasil os navios a vapor, a duração das viagens diminuiu para três semanas apenas, e assim o volume da imigração cresceu impressionantemente. Assim também, as viagens de volta ao Marrocos, com a riqueza acumulada, passaram a ser práticas. A riqueza trazida pelos jovens que retornavam demonstrava tamanha contradição com a pobreza reinante em casa, isso despertou o aumento do número de jovens que buscavam o “Eldorado” do Amazonas, e deixava para trás uma população predominantemente feminina no Marrocos.

O historiador judeu Samuel Benchimol, que escreveu e pesquisou sobre os judeus na Amazônia, afirma em seu livro “Eretz Amazônia” que mais de 1000 famílias chegaram do Marrocos à região entre os anos 1810 e 1930. Parte desses imigrantes chegavam acompanhados de seus familiares, porém, principalmente os pioneiros, chegavam sozinhos e muitos deles eram bem jovens. Assim como os imigrantes da Europa para o Norte da América, eles iam em busca de uma nova oportunidade de enriquecimento e somente após meses ou mesmo anos, seus familiares vinham se juntar a eles.

Uma das principais e mais interessantes provas da imigração judaica para essa região do planeta, é o Sefer Torá antigo de mais de 400 anos que pode ser visitado na Sinagoga de Manaus, outra comunidade judaica da região amazônica. O Sefer Torá foi levado de Portugal para Tanger no Marrocos e de lá para Manaus no século XIX.


Os primeiros Regatões

Os primeiros judeus chegaram à Amazônia no início do século XIX em pleno ciclo das chamadas “drogas do sertão” e outros produtos extrativistas. Vindos na sua maioria do Norte do Marracos, saíram de um país árido e desértico, para a maior bacia hidrográfica do mundo, sob a paisagem de uma das regiões mais belas do planeta.

Eram jovens que se sustentavam principalmente do comércio no interior da floresta amazônica. Eles passavam em pequenos barcos pelos vilarejos comprando produtos como peles e couros de animais, borracha, castanha e outros gêneros para vendê-los na cidade ou mesmo exportá-los e vendiam para os mesmos ribeirinhos, produtos trazidos por ricos aviadores judeus do exterior ou produtos das cidades grandes, como panos, utensílios e produtos alimentícios.

Depois deles, vieram as famílias, entraram no coração da Amazônia financiadas pelos grandes aviadores judeus que viviam em Manaus e Belém, e se fixaram em algumas vilas ao longo do rio Amazonas e seus afluentes. A chegada dessas famílias ao interior marca uma nova fase do judaísmo na Amazônia. Com o tempo foram sendo instaladas comunidades judaicas, as sinagogas funcionavam em casas particulares e eram fundados cemitérios judeus por toda a Amazônia. Essa consolidação do judaísmo no interior influenciou a cultura e a economia por onde passou.

Durante anos, os jovens e solteiros judeus que optaram por ficar nas pequenas cidades às margens do rio Amazonas, perderam sua identidade e se assimilaram. É possível encontrar até hoje em dia, os descendentes biológicos desses pioneiros judeus, que tiveram filhos com as mulheres locais e estes possuem as características físicas dos habitantes da região amazônica, ou seja os índios caboclos, cor da pele morena, olhos escuros e cabelos bem pretos, mas com nomes judaicos, como Levi, Samuel, Jacob e David. Os judeus que escolheram viver em comunidade e preservar seu judaísmo e sua identidade, se acumularam todos em Belém e posteriormente em Manaus, para dar uma educação judaica aos seus filhos e preservar a cultura judaica em geral. Várias vezes os pais eram obrigados a se ausentar e viajar por muito tempo ao longo dos rios em busca de recursos para o sustento da família.

A partir de 1850, durante o período áureo da Borracha, teve início uma nova onda imigratória de judeus para a Amazônia. Os judeus marroquinos começavam a receber cartas e pedidos de seus parentes, nas quais contavam as vantagens e as riquezas que estavam a favor de todos. Desta vez, ao invés de jovens solteiros, chegavam famílias inteiras para a Amazônia.

Continua na próxima edição. 


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